quinta-feira, 24 de julho de 2014

O HOMEM.



"....De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?...."
Adélia Prado




Bati a campainha e pela fresta da cortina na vidraça o vi com aquele sorriso de contentamento nos lábios quando me enxergou pelo olho da porta. Ele não era um homem qualquer, sempre soube. Foi no espelho, se olhou e colocou o paletó preto que estava na cadeira. E eu observando. Olhou novamente no espelho, se arrumou dentro da roupa e partiu em direção a porta. Eu é que estava com um sorriso de contentamento na hora que aquele homem , que não era um homem qualquer, abriu a porta. Ele estava lindo de paletó, o espelho tinha razão! Abriu o sorriso, os braços e me envolveu com sua força que nunca conheci em nenhuma outra pessoa. Falei sobre a pressa, como o  era tempo curto e a saudade longa, disse que falta que ele me fazia e me despedi com um beijo demorado e um abraço. E que braços! A porta que se fechou novamente, e moleca, o vi tirando o paletó com um sorriso que eu conhecia bem e, moleca,  novamente toquei a campainha. Ele olhou no olho da porta. Novamente!???! Abriu um sorriso e colocou, novamente, o paletó, olhou, novamente,  o espelho e abriu a porta. Sim, você está lindo! E eu  me senti  uma mulher, não qualquer mulher, mas, a mulher que um homem que não, absolutamente, não,  é um homem qualquer, quer estar bonito de paletó preto. E não havia mais tempo, nem pressa, somente eu, mulher, ele, um homem e nossos braços em abraços. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

CHICO, EXPLICA...



e se por algumas horas a dialética ganha importância e a


transfusão
transmutação
transfiguração
transferência
transformação
transposição


 transição,

me deixam transfigurada,

me diz, para onde ainda posso ir?







segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

"Deixe de chilique, deixe de siricotico"






Tranquei-me  do lado de fora
Daqui, ora, ali,  despedaço-me em confusão

Entre!
Volte!

Não me faltam convites
Não me faltam pretextos
Não me faltam dúvidas

Só me falta, amor....



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

CORAÇÃO



"sossega coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa"

Paulo Leminski



Na primeira dentada percebi que seu coração era músculo duro
Com o ácido do veneno do meu sangue apliquei o sórdido plano

Na segunda dentada, macio e suculento, devorei cada milímetro do seu músculo sangrante
Batendo forte
Vivo
Pulsante

Na terceira dentada, encontrei o centro do furacão, o aço, a revelia.
Que do meu peito arrancou-me o coração quente

Que seja confuso, que seja louco, que seja descompassado, mas,
Coração-leão,
Devolva-me o que é meu!
E eu te devolvo a solidão. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

VENENO.



Sweet the sin, bitter the taste in my mouth.
I see seven towers, but I only see one way out.
You gotta cry without weeping
Talk without speaking
Scream without raising your voice.
You know I took the poison, from the poison stream
Then I floated out of here, singing




Você acha que tomei algum tipo de veneno
Algum tipo de substancia que me entorpeceu,

Somos cumplices e vítimas
Das alucinações e delírios

No fundo do copo do veneno
Vi cenas não vividas

Eu corria livre e você ria
Você acordava ao meu lado

Entorpecida
Desperto
Procuro o antídoto

O tempo passa
Não há tempo
O tempo passa…

segunda-feira, 6 de maio de 2013

OS LOUCOS.





Porque o silencio em si é como o som dos diamantes que podem cortar tudo!!
Jack Kerouac

Tocou a música e rompeu nosso silêncioVocê me puxou para dançarEu, disse não.Você me arrastou para pistaEu, esperneeiVocê pediu para mudar a ritmoEu, griteiVocê segurou firmeEu enlouqueci.
E um blues tocou o arVocê parouEu, te olheiUm blues?Mas, então,Um blues?Se é um blues,Eu danço!
E nosso silêncio continuou...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

NÃO ESCREVO POEMAS DE AMOR.




"Essa mulher pensa que é uma pantera

e às vezes quando fazemos amor
ela rosna e funga
e seus cabelos se soltam
e por trás deles ela me olha
e me mostra suas presas
mas eu a beijo de qualquer jeito e continuo amando.
você já beijou uma pantera?
você já viu uma pantera fêmea se deliciando
com o ato do amor?
você nunca amou, meu amigo.
você com suas esquilas e tâmias
e elefantas e ovelhas.
você tem que dormir com uma pantera
você nunca mais vai querer
esquila, tâmias, elefantes, ovelhas, raposas, carcajus,
nada mais a não ser a pantera fêmea
a pantera fêmea atravessando o quarto
a pantera fêmea atravessando a sua alma,
todas as outras canções de amor são mentiras
quando aquela pele macia e escura vier em sua direção
e o céu desabar sobre suas costas,
a pantera fêmea é o sonho se realizando
e não há volta
ou desejo de –
aquela pele sobre a tua,
a busca terminada
e você aprisionado nos olhos de uma pantera."


Charles Bucovisk


Pelo mato iluminado pelo negro da noite sentia pelo caminho os olhos fixos e sangrentos no seu pescoço cheirando seu suor de ansiedade. Aproximando metro após metro.

 Sentia.....
Sim, sentia...
No vento o roscar e a respiração ofegante que se fundiam instintivamente.

Aproximava-se.

Sentia o correr dos passos
Sentia o bater das grandes asas negras no seu corpo feito para flutuar na noite do inferno para o céu.
Sentia o barulho do abrir das grandes garras.

Ofegantes.

Até que, seus passos pararam na noite e abriu seus braços, sua boca e sua alma para recebê-la como um bravo guerreiro que SE entrega na hora marcada a brava morte.

O que se viu foi sombra, foi noite, foi sussurro, foi desaparecimento.