segunda-feira, 12 de julho de 2010

Plácido e o fabuloso mundo do futebol.

Plácido conhecia bem a vida. Já tinha vivido intensamente de tudo um pouco, se jogado de modo ousado em situações e caminhos que alguns poderiam julgar imorais, insensatos e loucos. Para Plácido isto era apenas a vida. E era assim que para as alegrias, se diluía por dentro em felicidade e força. Para as decepções, hibernava no seu interior, dizendo a todos: “são coisas da vida”.


Enquanto sua mãe chorava no quarto, ele escolheu no armário as roupas para levar no hospital onde o corpo do pai se esvairia sem vida . Do sofá, o observei passando a escova de brilho nos sapatos pretos do pai. Vi aquele homem forte e sagaz desmoronando, com olhos escorrendo de uma tristeza infinita. Podia até escutar o choro silencioso de Plácido se fundir ao barulho ensurdecedor do lustro no sapato preto que tinha um destino frio e obscuro.


Foi assim, cabisbaixo, demolido e desesperançado que Plácido seguiu por sua vida após a morte do seu velho. Sempre esteve firme e preparado aos fortes trancos da vida, mas, desta vez…Era como se toda sua força e ardência pela vida tivessem sido enterradas naquele dia quente de Julho. Fechava os olhos a qualquer momento do dia e revivia o concreto sendo unido aos tijolos iluminados pelo sol escaldante tendo o som arrastado da pá do coveiro batendo no concreto como trilha sonora angustiante.


Sem se dar conta, sem movimentos próprios, sem que suas pernas o levassem, viu sua vida ir ladeira abaixo, viu e aceitou. E aceitou sem forças ou reação. Era o trabalho que entrou em crise, era a falta de vontade para qualquer mudança ou novo investimento, era o abandono da família e dos amigos, era o tanto o faz para ter qualquer relacionamento.


Inerte, passava longos dias em seu apartamento. Em poucos momentos se sentia triste, na maior parte do tempo era tédio. Era preguiça. Era desânimo. Era nada. Horas sem fim na frente de um computador lendo e procurando exemplares antigos de revistas em quadrinhos, curiosidades toscas sobre a vida animal e muita pornografia bizarra. A televisão era ligada 24 horas por dia passando as mais nojentas séries americanas, que eram vistas e revistas quando Plácido não estava dormindo entre roncos de cuecas no sofá. Do sofá, para a geladeira, a olhar catatônico por longos minutos, até inventar sanduíches esquisitos com ingredientes em nada combináveis em sabores e consistências. Da geladeira ao banheiro, em banhos demorados com um Plácido de olhos parados por longo tempo sentindo a água escorrer pelo ralo e só.


Só. Nem álcool, que lhe causava náuseas. Nem a boémia de antes, que sentia sono. Nem mulheres, que tinha preguiça de convencê-las. Nem amigos e loucura, que sentia a necessidade sufocante de não falar nada, rir de nada, sentir nada.


Plácido não queria morrer, mas, também, viver estava sendo muito custoso. Plácido nunca quis ser um perdedor, nunca fora. Não queria ser um bosta, nunca fora. Nunca teve uma vidinha medíocre. Mas, a meses que não pensava sobre isto, nem se qualificava e muito menos sabia responder o que o faria um “grande homem” naquele momento. Ele não pensava. Era custoso, queria que o deixassem em paz. Só.


Estávamos nós lá, tentando dar uma força de amigos. Ele com um dos sanduíches toscos na boca e um copo de refrigerante vagabundo no copo sob as pernas, todos reclamando do técnico, dos merdas que tocavam a bola com moleza. E Plácido, lá, parecendo nem prestar atenção, mastigando com a boca aberta o sanduba que fazia escorrer um líquido amarelo na camiseta esgarçada a cada mordida faminta. Sentia falta dos comentários ácidos e engraçados que era acostumado a ouvir da boca daquele maluco. Até que Holanda marcou o segundo gol e Plácido como que por impulso cuspiu os restos do que havia na boca no tapete e saiu em disparada na janela gritando: “TOQUEM AS VUVUZELAS AGORA SEUS CORNOS”….


Silêncio total de segundos até escutar os mais baixos palavrões da vizinhança. Rimos como loucos rolando no tapete, enquanto o velho Plácido parecia meio tonto, meio bobo, meio rindo, meio alegre, meio... Meio que voltando ao normal…

7 comentários:

Hegli disse...

EI amiga, texto maravilhoso!!! Perfeito! Parabéns!

Cachorro Louco disse...

Hehehe... Muito foda! Suculenta essa mulher viu.

Eliana Mara de Freitas disse...

Renata,

então, estou meio Plácido, as vezes.
E acho comovente ver um amigo retornar, voltar de si mesmo, começar a descongelar a apatia da dor.
Muito sensível.

Beijo

Cacá disse...

Uma espécie de catatonia, às vezes é sustada com o evento qualquer que desperta de novo para o normal. O normal? Sei lá, para o cotidiano. Belíssimo o texto! Abraços. Paz e bem.

Anga Mazle disse...

Bela crônica, Renata!

O Plácido existe mesmo? Bem, não importa: o caso é absolutamente verdadeiro, seja real ou não.

Um abraço

Renata (impermeável a) disse...

Anga,
tem um verso do Manuel de Barros, que diz:

"Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira"

rs.
Mas, legal que fez esta pergunta, porque me arrisco em crônicas cotidianas a pouco tempo e tem sido muito prazeroso a reação de quem as lê, as vezes a identificação e as vezes o asco que os personagens causam em atitudes que nós mesmos podemos estar vivendo.

Esta crônica em especial, gerou alguns comentários interessantes, sobre a existencia da situação ao do próprio Plácido. Fiquei imensamente feliz, porque reflete a veracidade das descrições para um panorama completamente fictício.

Plácido não existe. A situação descrita não existiu.

Talvez para quem escreva entenda a montagem da observação, de sentimentos e palavras soltas no ar, como a montagem de um quebra-cabeça, no fim..... a crônica montada e publicada!

Mas, nada neste blog é autobiogrático.

Este blog só tem me dado felicidade e escrever tem me proporcionado a maior das liberdades!!!!!!

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Vejo que você tem se esmerado cada dia mais nos seus belos textos, Renata. É isso mesmo! "Plácido..." ficou lindo. Em frente, menina! Não perdoe folhas brancas nem tela iluminada; encha-as com as belezas de sua inspiração.

Quanto ao alerta “desautobiográfico”, seus blogleitores sabem-no. Fique serena quanto a isso, e escreva sobre tudo que lhe der na telha, sem temor de qualquer espécie, muito menos acerca dos valores. Arte é arte! Imagine se Nelson Rodrigues, com toda aquela tensão moral dele, fosse tão só autobiográfico em sua obra!? Nem Lacan explicaria...

Abs