sexta-feira, 8 de abril de 2011

Leonardo e Carina: o nosso conto de fadas.

Jogou o cigarro no chão e entrou apressado no bar sujo da esquina. Nem sentiu nojo do café frio que o garçom asqueroso colocou sobre o balcão com desdém. Não se sentia acordado e o café fraco desceu ineficaz pela garganta seca. Era tarde, e sempre era tarde, estava atrasado, mas, não existia nenhuma vontade de se mover em direção a nada, muito menos ao trabalho. A madrugada fora longa depois da briga desaforada com Carina. O sofá, programas de compras na TV e o cigarro foram sua companhia madrugada a fora. Saiu de casa sem ao menos escovar os dentes depois que ouviu a movimentação no quarto denunciando que ela estava acordada.

Não queria ver Carina pelos menos por uns 10 dias. Já estava tudo programado em sua cabeça. Iria passar em casa no fim do dia pegar umas cuecas, compraria com o fim do limite do cartão uns 2 litros de uísque e dormiria no sofá do escritório por uns dias. Seria bom ficar sozinho, colocar em dia uns processos e petições atrasados, beber, sair sem hora para chegar. Seria ótimo. Ela ficaria desesperada por uma atitude assim tão drástica. Precisaria quebrar o celular, seria uma boa desculpa para não atendê-lo e mais ainda, não queria sequer ver a foto de Carina cada vez que olhava as horas e ouvir aquela música irritante da Alicia Keys, que ela enfiou no celular, cada vez que enchia o saco com coisinhas bobas em ligações e ligações e mais ligações no meio do dia.

“No one, no one, no one... “, era ela. Quando viu a foto piscando reparou na feição sem graça que seu rosto se transformava quando abria em sorriso. Alegria não era mesmo o forte de Carina. Tudo que se relacionava a fe-li-ci-da-de a deixava tensa e estranha. Devia ser trauma de infância ou a maneira que foi criada pela mãe desgraçadamente chata. O aparelho tocava... foi um presente dela e tinha uns comandos que o fizeram feliz durante dias a brincar com teclas e tela. Agora era o som da americana que gritava como uma gata no cio e a foto de mulher que com sorriso falso e só. Resolveu que não destruiria por enquanto o celular, mas, retirou a bateria.

Leonardo. Escutou uma mulher o chamando. Era a estagiária do escritório do andar debaixo. Ele sempre ficava desconsertado com a insistência da moça em estar por perto com seu perfume doce de embrulhar o estomago. Leooo. Que intimidade era esta? Ele se perguntou. Sentiu-se incomodado por manter, sem controle, seus olhos no decote generoso que emoldurava os fartos seios da moça. Sem jeito, parou para comprar jornal enquanto reparava na bela bunda da moça que seguia seu caminho. Leu sobre o aniversário de morte de John Lennon e a necessidade de engenheiros no mercado. Nunca pretendera ser engenheiro e sempre preferira à rebeldia insana de Mick Jagger a bandeira hipócrita de paz e amor de Lennon, então, era mergulhar no trabalho. Em algum momento do dia se lembrou da bunda da estagiária e a comparou com a da Carina. Evitou tais pensamentos.


Final do dia e estava cansado. Esqueceu do uísque e das cuecas limpas. Olhou para o sofá e decidiu que não tomaria banho. Ele se jogaria no sofá e dormiria até o dia seguinte e só. Ah não, que merda, tinha uma reunião importante na manhã do dia seguinte e suas camisas estavam tão bem organizadas ao lado dos vestidos de Carina no guarda-roupa, se fosse rápido Carina não estaria em casa ainda, era quarta-feira dia de esticar com as amigas até o shopping. Foco, Leonardo: pegaria as cuecas e camisas limpas e tchau.

Tchau, ecoou na sua mente durante todo o trajeto. Tchau. Como um mantra a ser praticado por insistência.

Primeiro, segundo, terceiro andar e escutou o som de Pixies abafado vindo de algum lugar. Quarto andar, Here comes your mannnn. Quinto, tocou uma guitarra imaginária. Sexto, sétimo andar e sentiu o cheiro de bifes acebolados, que maravilha, estava louco de fome. Oitavo andar, porta do seu apartamento. Here comes your man, no último volume e Pixies era o som que curtia com Carina no tempo que se conheceram. Bife na cebola era sua comida favorita e toda esta confusão de sons com odores vinham de lá, depois daquela porta que ele estava disposto a abrir e rapidamente pegar o que lhe interessava e tchau. Tchau. E dez dias de sofá, trabalho, uísque e estagiárias peitudas.

Carina estava de costas para a porta lavando com aquele cuidado que só ela poderia ter um maço de rúculas. Ele adorava rúcula com biles acebolados. Tchau! Estava com um camisetão branco com aquela boca enorme e língua para fora que compraram quando estiveram no show dos Rolling Stones em Copacabana. A transparência deixava visível a calcinha fio dental preta, uma dos montes iguais que se empilhavam na última gaveta da cômoda que ganhara de presente da avó. Tchau! Deixou escapar um sorriso ao lembrar do pranto interminável que ela aprontara durante 1 dia e uma noite, o tempo que durou para fazer a patina inglesa na cômoda retro da avó. Só Carina mesmo para conseguir chorar pela avó, pela infância que passou e pelos erros de técnica da patina, tudo ao mesmo tempo e mesmo assim tirar gargalhadas sem fim dele durante 1 dia e uma noite. Era tchau, Leonardo. Pegou as cuecas, estavam dobradas como a mãe o ensinou quando era criança e que Carina adotou já na primeira semana que começaram a morar juntos. Enroladinhas dentro de uma gaveta forada com uns plásticos coloridos e cheirosos que Carina comprou em uma loja bacana. Não tinha onde colocar as cuecas e as camisas minuciosamente bem passadas. As malas estavam bem empacotadas na parte de cima do guarda-roupa. As camisas iram amassar, era melhor deixar para pegar estas coisas amanha, poderia comer os bifes... Tchau! Saiu do quarto com as camisas caindo pelas mãos e antes de fechar a porta da sala, olhou para Carina, que ainda de costas, abria uma garrafa de cerveja, remexendo os cabelos e quadris. Tchau... Tosse.

Amor, você chegou. Tchau... Deixe as camisas ai, depois guardo. O T veio à boca, mas, ela veio em sua direção e assim como imaginou estava sem sutiã. Abriu a boca e o T saiu na forma de um fonema amorfo. Ela tinha se esquecido de quanto Pixies era bom, se livrou do trabalho mais cedo, fez os bifes que tanto gostava, T-C, estava louca de saudades e achou que talvez ele tivesse ficado chateado com a crise nervosa que teve durante a madrugada, afinal era apenas TPM. O perfume amadeirado e quente se aproximava e sua boca se movia com a força de mil palavras por segundo do jeito que só Carina conseguia. TCH e a língua úmida de Carina sugou o A da boca áspera de Leonardo. As cuecas limpas caíram no chão e as camisas no sofá e não se sabe até hoje o destino do U do tchau em mantra que Leonardo ensaiou.

Jantaram depois de tomar a cerveja. Ouviram ainda Pixies por algum tempo sentados na varanda. Carina passou os pés nos pés de Leonardo durante todo o tempo e ele se sentiu acarinhado. Ficou tarde e Leo apagou a luz depois que Camila se aconchegou no seu corpo. Suspirou profundamente e sentiu todo o corpo estremecer em ternura.

E viveram felizes para sempre, pelo menos até a próxima TPM

9 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Sua narrativa tensionando de distensionando a situação do casal é uma coisa deliciosa de se ler, Renata. Um conto pra ajudar a fazer as pazes qualquer casal que fique por aí de briguinha sem maiores danos. rsrs. Adorei. Meu abraço. paz e bem.

Zélia Guardiano disse...

Um show o seu texto, Renata!
Demais!
Grata pela amável visita!
Abraço, querida.

R.B.Côvo disse...

Gostei do texto. É mesmo assim. Maldita TPM! rsrs. Abraço.

Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus disse...

Buenas, outro dia meu amigo Juan Pedro, filosofando sobre o casamento, citou Sócrates: "Cásate, no tengas duda; si la mujer te sale buena, serás feliz; si te sale mala te harás un filósofo".

É soberbo escrever bem... E é teu caso, Medulina... Viva você, Bukowski e todos os malditos das letras.

Cynthia Lopes disse...

Oi Renata, seu texto está cada vez melhor, cheio deste humor rascante, do dia a dia. bjs

Márcia Luz disse...

Olá!
Obrigada pela visita a meu blog!
Adorei o texto! Concordo com o que disse o José Cláudio.

Beijos

Márcia Luz disse...

Ah! Não aguento... tenho que comentar, mas fiquei na dúvida quanto ao nome da personagem feminina. Ninguém falou nada...

Renata (impermeável a) disse...

Leitores,

Existia aqui um complo reacionário do blog contra camila.... ou carina.........

O nome da princesa do conto, nao era CAmila CArina.... conforme o dia e sim, CARINA.

Desculpem enormemente pela falha e as vezes fico com medo da vida propria da MATRIX...

mARCIA, obrigada pelo alerta... seja sempre bem vinda.

Arnoldo Pimentel disse...

Oi Renata passei para retruir a visita e conhecer seu blog, gostei muito, seu texto é ótimo, uma narrativa muito bem conduzida, já te sigo.Visite meu outro blog, será um prazer sua visita, beijos.

ventosnaprimavera.blogspot.com