A fogueira estava no meio do quintal, algumas bancos dispostos ao lado e o moço começou a dedilhar no violão canções populares que não se ouvia nos lugares a muito tempo. Alguns dançaram sem compromisso perto do fogaréu, mas, o dia era quente de verão e todos ficaram ao longe, observando a fumaça, a luz do fogo, as brasas, o chamuscar do ar. Menos a menina pequena que saiu correndo no meio as pessoas e sentou muito próximo da fogueira, a mãe gritou de longe: “ cuidado com o fogo, menina”, a vó: “ criança que brinca com fogo, faz xixi na cama”, a vizinha: “vai se queimar e não diga que não avisamos”. Mas, ela continuou ali, paralisada, olhando para o fogo, até que algo chispou e uma chuva de pontos brilhantes caiu sobre ela. Tudo parou e ficou embaçado na sua visão e viu somente os muitos e maravilhosos pontos de luz que caiam sobre seu corpo. Garota, se lembrou das fadas e raios de varas de condão. Foram segundos e ela ria, encantada com a magia.
A noite acabou com a menina chorando por entre as pessoas, a mãe preocupada, o pai disse que tinha avisado, a vó rezava para Nossa Senhora e ela estava inteira, queimando e só esperneava porque queria voltar para a chuva de brilho em brasa mágica.
Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança. (Shakespeare)
Ela gostava da prosa, dos grandes romances. Suspirava. Sonhava com as histórias de amor :
"as letras iriam correr e no fim um “the end” enorme iria surgir. Uma música bonita de orquestra tocaria. E o beijo seria eterno, em uma prosa de amor"
Até que ela descobriu que preferia as poesias.
Queria poesia e engavetou a história, o romance, o conto, as fadas Queria insistes e não a ideia completa Queria poesia de dia, de tarde, de noite Queria poesia aos 40, aos 50, aos 60 Queria Maiacovisk, Mr. Barros, Pessoa Queria versos, estrofes, rimas sem fim Queria licenças poéticas Queria exclamações e não ponto finais Oh!!!!!!!!!!! Ah!!!!!!!!!! Não!!!!!!!! Sim!!!!!!!!
João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade
Haveria alguma explicação para o que João queria que Maria explicasse, estava ali na ponta da sua língua, na faísca do seu olhar e o arrepio do seu toque. João queria era escutar outra coisa. Pedia a explicação e olhava nos olhos de Maria, que não desviava o olhar, mas, desviava a explicação.
Maria não podia dizer, senão diria o que João queria ouvir e Maria que queria tanto dizer... Não podia, ainda não podia e segurava por entre a língua e as cordas vocais as palavras de uma forma covarde. Sem dizer, com palavras açoitadas na sua boca, se torturava sadicamente do amanhecer ao anoitece.
João ficava confuso tal qual Maria quando ela queria ouvir e ele não pensava em dizer, não era vingança, era o rodopio da quadrilha a deixá-los longe, perto, juntos...
Maria ainda iria dizer, aquelas palavras eternas e João ainda iria querer ouvir. Vejo a cena: vão se dar as mãos, estará anoitecendo e será somente João e Maria, nada de Tereza ou Joaquim ou Lili....ou J. Pinto Fernandes!
Somente João e Maria.
( minha homenagem ao primeiro poeta e poema que conheci e que me fizeram entender que não existe maneira mais livre de expressar e entender meus sentimentos e do mundo senão pela poesia, parabéns pelos seus anos Carlos Drummond de Andrade e a sua benção!)
Talmo terminou seus trabalhos no computador do escritório da sua casa. Não era tarde, definitivamente, não era tarde. Ao afastar da mesa viu a luz do quarto dos filhos já apagada. Alongou os braços e pernas cansados pela tensão do dia e de todos seus pequenos problemas cotidianos que lhe consumiam. Ouviu o choro do menino mais novo e quase foi ao seu encontro, mas, antes disto, viu a sombra do corpo da Norma a sair apressadamente. Ele poderia ter trazido o garoto até o seu colo e afagá-lo, talvez o levar até o sofá cama pronto para dormir e chamar Norma para deitarem e, juntos, falar sobre as estrelas e as constelações. Talvez poderia encaixar seus pés nos pés dela e sem que ela se desse conta terminariam enlaçados com o garoto encaixado no meio de suas pernas. O menino adormeceria e os dois talvez dormiriam assim, se estivessem em acordo e apaziguados, mas, se Norma continuasse a passar seus pés macios sobre sua perna, saberia então que a poderia beijar, a tomar pelos braços. Saberia... Mas, o garoto mais velho dormiria da cama com Norma no quarto do casal e, Talmo não queria discussões e antes ...Norma apressadamente colocou o menino para dormir. Era tarde e os garotos tinham hora para levantar, hora para ficar acordados. Existiam horas e tempos a ser cumpridos. Esta era Norma obcecada por números, por padrões, por coeficientes aplicáveis. Porra, Norma, isto me entedia. Pensou. E o silencio se fez naquela casa, até que ela ligasse o chuveiro. Água escorrendo. E Talmo lá, olhando a tela do computador a olhar para o quase vazio de suas esperanças, até que passou por entre seus olhos um vídeo e ao observar as imagens sensuais da gritaria histérica das mulheres lindas por um único homem, lembrou de Norma e de sua paixão quase infantil por Elvis. Na verdade, tentou se lembrar se alguma vez desde conheceu Norma e seu delírio pelo defunto, sentiu ciúmes desta atração de Norma por um homem, ta, desconhecido e morto, mas, que poderia significar a atração dela por homens obviamente sedutores. Baita pensamento louco este, riu. Atempo não sentia ciúmes de Norma com seu jeito inflexível a regras de bom comportamento e era certo que isto o deixava em uma posição sentimental de conforto. Conforto, agora, que incomodava. Queria sentirciúmes de Norma. Urgentemente. Queria urgentemente que algum desejo sexual movesse aquela sua mulher, mesmo que por outro homem. Norma, faça que eu sinta ciúmes de você!
O silêncio voltou. Ouviu o barulho do notebook ligando no quarto do casal e apertou rápido o botão ENVIARda mensagem.
Talmo sentiu o coração disparar de excitação enquanto ouvia do outro lado do corredor do apartamento em silêncio do barulho de teclas. Silêncio. Teclas. Silêncio. E... guitarra distorcida. Gritinhos histéricos e You know I can be found...
A música em sombra ecoando e Talmo com olhos fechados imaginando os olhos de Norma vidrados no branco e preto dos trejeitos de Elvis a correr do sucesso e poder das garotas.Replay. E escutou a voz de Norma a acompanhar a letra I don't want no other Love, uau, ela continua desafinada como a anos atrás, mas, cantava com a mesma voz manhosa, se deliciando com os sonhos de amor a la Elvis.
Então, a voz foi se aproximando e Talmo abriu os olhos para ver no corredor a sombra de Norma se aproximando como uma gata se arrastando pelos cantos, parou na porta do escritório descalça, de regata colada ao corpo, que deixava a mostra parte da barriga e a lingerie com rendas nas laterais. Simples, como seu cheiro por todo lado. Colocou a mão na cintura a balançar de leve o corpo no ritmo da música que vinha de longe e abafada.
Norma conhecia as excitações de Talmo e depois de ver em seus olhos a excitação pelo momento, torceu seus lábios para o canto vagarosamente. Talmo se lembrou do mesmo movimento feito pela mulher do vídeo, viu desejo nos olhos de Norma, não se lembrou do ciúmes necessários, só a beijou e a beijou novamente e novamente e queria a beijar sempre , sempre e para sempre...
- Uma vez perguntaram a um escravo fugitivo sobre seus pais e ele disse que haviam sido assassinados. Que triste, responderam e ele prontamente retrucou, não é triste, é a vida!
Sentiu o começar do despedaçar em seus sentidos. Livrou abruptamente dos seus braços e dos seus beijos, manteve o olhar longe das suas vistas enquanto sentia a explosão repartindo seu corpo em mil pedaços.
Espalhada pelo chão, destruída, sentia a dor dilacerante do ato suicida e tentando racionalmente se reconstruir só pensava insistentemente nas poucas vidas que ainda lhe restara...
Não era triste, eram apenas poucas as 7 vidas intensas que se dera ao luxode gastar como uma Kamikaze.