segunda-feira, 24 de novembro de 2008

E foi “mofado” o princípio do fim.



(para minha irmã e seu amor que me envolve em nuvens)



Querida amiga, a água que tem passado por baixo da ponte tem ficado cada vez mais densa e turva, novos fortes ventos em ondas estranhas tem arrastado para longe das árvores aquelas folhinhas secas que adorávamos observar no “afunda-afunda” sem fim . Aqueles peixinhos amarelinhos, que tanto queríamos para um suposto futuro aquário, ainda continuam a brincar em ziguezague sobre as águas, parecem mais rápidos que antigamente e tiram-me risinhos de canto, quando saltam em cambalhotas. Espirram água por todo lado, os danados! Balançando as pernas no ar, sinto-me como uma menininha. A ponte está mais bonita, precisava ver! Bucólica, com a madeira do corrimão corroída e musgos crescendo deliberadamente. Fico olhando aqui o quanto parece escorregadia, mas, não encontro a mesma ousadia de ir lá e brincar em uma emocionante imaginada pista de patinação. Nossa, iríamos rir um bocado entre um tombo e outro, eu, com meus ataques de riso que não me deixam em pé e você quase fazendo xixi nas calças, ainda tem esta mania, de precisar ir no banheiro quando gargalha?


Ao longe, avisto crianças brincando na água, soltam uns gritinhos engraçados. A água parece mais fria e o rio mais fundo. Fico preocupada por estarem ali sozinhas, só podem estar escondidas dos pais. Mas, acalmo meus pensamentos observando o quanto parecem livres e entregues as brincadeiras.


Fico aqui minutos sem fim. De olhos bem abertos, minutos lá, horas em outro mundo, é quando vem o cheirinho do flamboiã e me traz de volta ao mesmo lugar, mas, em outras épocas. Uma grande saudade de tudo aperta o peito. Um susto melancólico que diz que as mudanças aconteceram rápido demais, tão rápidas que a diferença das sensações parecem apenas sombras impressas em fotografias instantâneas.





(pausa para escutar como trilha sonora: With a Little - Joe Cocker)




Respiro profundamente. Já fazia uns meses que não respirava. Tempos difíceis, amiga, complicados para pessoas que ousaram sonhar com o que nos permitimos. Enquanto corríamos por aqui e entre estas árvores, nada parecia impossível. E a noite, no gramado, a via láctea em estrelas parecia tão próxima e a luz que iluminava tinha mais força e vitalidade em nossas vidas. Agora, que volto a respirar, me pergunto, em que momento da vida passei a querer tão pouco de tudo e dar de mim o mínimo fantasiado de esforço.


O ar por um instante torna-se rarefeito e a imagem do seu rosto, ainda criança, sorrindo, me vem a frente, você me entende a mão, me chama para brincar, ri do meu agora pouco cabelo espetado engraçado, comenta do pó-de-arroz que devia usar nas minhas olheiras, de como ficaria parecida com uma boneca de porcelana. “ Vem bicuda”!!!! Toda engraçadinha! “Vem”. Abaixo e balanço a cabeça, achando não poder ser mais possível, permitir a sua presença infantil. “Vem!” E o ar volta em abundância, escuto seu barulho em forma de brisa macia nas árvores desassossegadas, me encho de sentimentos que retornam e com pulmões inflados de uma liberdade regressa, seguro firme na sua mão, imprimo seu sorriso no meu rosto e assim, junto a você, deslizo sobre o gramado correndo em saltos de um lado para outro procurando, amiga, em que pote escondemos aquela velha e melancólica felicidade.


6 comentários:

hegli disse...

Lindo demais isso amiga, para um dia como hj em que eu estou por um triz, da loucura e da tristeza, da preocupação infame que produz essa demência passageira, suas palavras são um bálsamo, uma dose de docura na amargura em que me vejo encurralada (só por hj). Obrigada!

Kaz disse...

Lindo. Não encontro nem palavras.

Poeta Urbano disse...

a Saudade machuca

Quand tem uma trilha sonora, as vezes é pior ainda

Mas sempre, o sorriso vai prevalecer!!

Renata (impermeável a) disse...

as vezes a saudade gera uma melancolia intrigante como uma "cosquinha" e com a trilha sonora se torna quase gostosinha como tal...

Renata (impermeável a) disse...

em Tempo: poema em linha reta



Canção do dia de sempre



Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
(Mário Quintana)


leiam: http://www.blogger.com/profile/05199822402387321915

Lubi disse...

querida querida.
obrigada pela visita.
=)

por ter gostado do meu texto ter me mostrado uma coisa tão bonita.

beijos.