quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MANOLO BLAHNIK

Maria Luisa é uma mulher incrível. Inteligente, culta e bem articulada, atrai olhares de todos por onde passa. Seu porte físico esguio e elegante ganha ares de uma sensualidade natural em gestos, charme e um despojamento autêntico. Nascida em berço de ouro e acostumada com lençóis de algodão egípcio, foi educada nos melhores colégios, leu os grandes clássicos, visitou os museus mais significativos, foi a shows e teatros de artistas incontestáveis, frequentou desde pequena os melhores lugares, nas melhores viagens pelo mundo. E quando resolveu saber mais da vida foi morar sozinha na Europa. Estudou e trabalhou no que quis, se entregou a grandes paixões e a amores mansos. Foi amada, amou, desamou, teve decepções amorosas sempre curadas em banhos de espuma e taças de vinho francês. Quando decidiu por responsabilidade, criou uma grife de roupas que logo ficou famosa. Casou com um grande amor e desde que o casamento havia acabado, morava em uma casa maravilhosa, distante do grande centro da cidade. Em sua sala espaçosa com confortáveis sofás e paredes imensas de vidro, Maria Luisa, recebia, em festas e reuniões super concorridas, intelectuais e pessoas descoladas que por madrugadas adentro se deliciavam ao som de boa música, poesia e conversas animadas.

Bene é um homem estranho. Um destes moradores de rua sujos e sem identidade, logo ganhou fama na rua onde dorme, pelo seu jeito esquisito e eloquente de ser. Com traços de esquizofrenia, anda pelas ruas vivendo de esmolas e sempre as voltas com as assistentes sociais que querem lhe dar um lar, uma “vida de homem de bem”. Ao contrário do que pensam, não gosta de bebidas alcoólicas, na verdade, adora aproveitar o anonimato e a fama de louco para dizer o que quer, da maneira que quer. Nem sempre foi assim. Benedito, trabalhava com carteira assinada, tinha carnês, de prestações a perder de vista, de carro e electrodomésticos. Casou-se jovem, com a menina bonita e carinhosa do bairro, para assumir uma gravidez precoce e assim viu o sonho de ser professor de literatura ir por água abaixo. Um dia, depois de um dia péssimo de trabalho, chegou em casa e paralisou perante a descabelada e obesa mulher, que a sua menina tinha se transformado, ela berrava mil reclamações enquanto devorava espalhada no sofá, sujo da sala, um prato de macarrão instantâneo. A paralisia se transformou em uma crise nervosa irreversível que o fez sumir dali e nunca voltar. Bene era do mundo.

Janete era engraçada. Tinha uma maneira peculiar de sempre ir diretamente ao assunto, mesmo sendo, este assunto, desagradável e indigesto, louca por detalhes, arrematava com um comentário decisivo baseado no mundo próprio que vivia. Não era bonita, nem feia. Viveu sua infância correndo e andando de bicicleta em uma cidade do interior, quando mudou para cidade grande, achou tudo tão diferente, mas, logo se adaptou. Trabalhou em tantas coisas que não saberia mais quantificar e gastava grande parte do que ganhava, sendo vendedora de uma loja de ferramentas para construção, em roupas inspiradas na moda das telenovelas. Adorava dançar e saia com amigas para boates e bares da cidade. Só havia namorado uma vez e desde então, tinha relacionamentos rápidos, sempre com mil histórias engraçadas, amantes problemáticos e namoradinhos apaixonados. Aprendeu desde cedo que se fosse educada e cordeira, teria bons lucros! Andava as voltas com um patrão que a assediava e humilhava, mas, tinha os três cartões de créditos cheios de prestações para pagar, por isto, suportava tudo, sendo calculista, sempre de olho na próxima e prometida grande oportunidade que a vida iria lhe trazer.

Maria Luisa saiu apressada do seu terapeuta, no elevador seu celular tocou e era sua amiga chorando e reclamando da traição do marido, ao atravessar a rua............

Janete, pegou a condução para voltar ao trabalho depois de ir ao centro bancário pagar parte das suas contas, pestanejou contra o cobrador grosseiro e o motorista apressado. Sentou no primeiro banco logo a frente e antes mesmo de se acomodar foi arremessada contra o vidro do ônibus depois de uma freada brusca, tentativa frustrada de.......

Bene, comia na praça um resto de mamita oferecida pelo dono do bar da esquina, olhava para suas mãos sujas distraído ao mastigar, voltou a realidade pelo barulho de um ônibus em alta velocidade tentando frear, seu coração disparou, preferiu não olhar e escutou gritos….

Os respingões de sangue no vidro do ônibus assustaram Janete. Sentiu o sangue escorrendo pelo rosto e por segundos, achou que aquele vermelho fosse do seu corpo. Ao levantar, assustada e maldizendo o motorista imprudente, olhou para o asfalto a frente, e soltou um grito de desespero ao ver a poça de sangue em que Maria Luiza estava mergulhada.

Sol a pino em dezembro feito de verão escaldante, uma hora da tarde, o trânsito que já marcara seu compasso com buzinadas e palavrões pelo atraso na cidade que não pode parar. Bene, viu estendida sob o asfalto a moça com o rosto desfeito em carne em pedaços, o sangue, que escorria pela cabeça de um cérebro amolecido a mostra, escoava borbulhando no asfalto quente. Seus últimos suspiros foram sôfregos e afogados em substâncias corporais retorcidas. A multidão de curiosos observava em transe caustico a cena pavorosa. Janete, já recomposta, em pensamentos agradecia estar bem e viva, já Bene, abriu caminho na multidão e ajoelhado perto de Maria Luisa observou a pele alva e macia das pernas a mostra e leu devagar os escritos do seu sapato: ma-no-lo b-l-a-h-n-i-k, olhou para o céu e como em profecia, começou a gritar com toda força da sua voz em disparada: DO PÓ VIEMOS, AO PÓ VOLTAREMOS!
( esta crônica ja fui publicada neste blog. Então por ter um carinho especial por ela e tambem, por estar completamente sem tempo para escrever , a publico novamente)

3 comentários:

Cacá disse...

Esta é uma síntese de três vidas tão diferentes em p´raticas e concepçoes mas comuns na essência . Perfeita você, Renata. Muito boa! Abração. paz e bem.

Ludmila Rohr disse...

sim...tudo bem, voltaremos ao pó..todos.., mas a pergunta que não quer calar: "Alguém pegou o Manolo????".

Beijos amiga linda!

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Renata, ao terminar de ler sua crônica percebi nela uma escultura triangular de uma pequena parede recém começada e interrompida: três lajotas novas, bem queimadas, de seis furos, com a argamassa ligando-as. As faces das lajotas estavam arrematadas com esmero. Os excessos da argamassa dormitando às pontas, esperando pelas reticências, as novas peças.

Explico esse meu enigma agora: por duas ou três vezes passei por aqui e comecei a ler sua crônica, percebendo na narrativa parcialmente lida um estilo diferente de escrita, ousado literariamente (eu adoro quem ousa nas letras; em literatura o trivial me enfastia), mas notava que naqueles momentos meu estado de espírito divagava, levava-me à dispersão, e não conseguia me concentrar. Muito cedo em minha vida aprendi a esperar pelas coisas, sobretudo para absorver ao máximo a beleza e os encantos que estão no ar a todo instante. Para a dissipação das nuvens que às vezes pairam sobre mim também dou o mesmo tratamento; o exercício da resignação.

Então, Renata, estando hoje em paz espiritual, retomei a leitura de sua crônica e pude ver a densidade da carta filosófica que ela traz. Um convite a nós, seus blogleitores, para o desapego, à valorização de cada instante vivido em busca do que ainda se tem a viver, da certeza de que a vida tem muitos capítulos e às vezes até parece que quer repeti-los. Mas nisso engana-nos ela, a Vida; ela quer é coragem e dignidade de nossa parte, porque todos nós, indistintamente de estrutura física, temos muito de Maria Luisa, e às vezes até nos rebelamos diante de nossa condição material num momento, deixando aflorar-nos a Janete ou assomar o Bene que se esconde sob nossa pele naquele instante. Todavia, nem é preciso muito esforço, mas tão só sabedoria, para que percebamos que durante essas fases de conflito, frequentemente uma Força-mor afaga nossa cabeça, nossos cabelos; e a Paz vai retomando seu lugar dentro da gente, como se fora as límpidas águas de uma nascente que vai abrindo seu leito rumo ao mar, não obstante a inclemência do sol que a fustiga. É o recado da Paciência divinal: toda árvore tem sua história... Creio piamente!

Parabéns por essa belíssima crônica! Ela merecia mesmo ser republicada.

Abs