quinta-feira, 3 de junho de 2010

Relato de feitiços contra a morte


"A morte não fede. Só os vivos fedem, só os agonizantes fedem, só os podres fedem"
Charles Bukowski



A primeira vez que a morte veio, eu ainda era imortal. Não a temia, não tinha conhecimento da sua existência, do seu poder e da sua habilidade no comando do meu declínio.


E ELA começou a espreitar e, com olhares autoritários, observar meu dia-a-dia sentada, tomando uísque, no alto de uma montanha. Eu juro que vi seu vulto ao longe, mas, nunca imaginei de quem se tratava...

Foi assim que começou. A morte, já ao meu lado, soprava os meus tranquilizantes ao vento e o ar quente da sua respiraçao me fazia contorcer de dor. Seu cheiro me fez sorver em líquidos verdes. Mas, os orientais chegaram em tempo e com um enorme cano nojento nas minhas vísceras, tal como dizia as escrituras, sugaram-me para longe dela.

Agora era mortal e de longe, no alto as montanhas do horizonte, via seu endereço.

Em um dia de inverno a morte voltou. Primeiro perambulou no meu quintal, decidindo se me levaria em 3 meses, em 2 anos…. Foi nesta época que pendurei minhas importâncias no varal tentando afastá-la. Depois, tudo que me era de valor junto com uma réstia de alho. E ELA entrou porta adentro voluptuosa e dentro da minha casa, ao meu lado, sentia seu ressonar e todos seus ruídos horripilantes que me sugaram o viço dos olhos, a alegria cotidiana e a paz interior e em alguns momentos, me arrepiavam os pelos da nuca, por dias. Não haveria negociação.


A solução foi drástica. O feitiço era único. Desta vez, o tomei o chá feito com todos meus cabelos a meia-noite por 9 meses e por 16 vezes morri um pouco de cada vez e por 16 vezes renasci ainda mais forte.

E assim como estava escrito no livro, ela não se apoderou do meu corpo e nem da minha alma. E o processo tão famoso nestes meios mortais, de AFASTAMENTO DE MORTE AFOITA, foi realizado com sucesso!

Já não temo a morte. Faço como o velho Buk me ensinou: "levo ela no meu bolso esquerdo, às vezes, tiro-a do bolso e falo com ela".

O velho Buk é um velho safado, mas sabe das coisas... Deu certo, ela só quer me atenção nos seus dias mais sombrios e solitários, a morte é minha amiga do lado esquerdo do peito!


(Velho Buk: leia-se Charles Bukowski e o conselho(levo ela no meu bolso esquerdo, às vezes, tiro-a do bolso e falo com ela , é um fragmento de O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio )
(Imagem: Frida Kahlo , the two fridas)

3 comentários:

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Renata, que belíssimo excerto do livro de Charles Bukowski. Eu não o conhecia (até agora), mas vejo que ele é um ás na alegoria de brincar com a "morte"... Uma pérola de narrativa gostosa sobre um tema cabuloso.

Obrigado pela excelente dica de leitura, Renata. É por essa e tantas outras que adoro a blogosfera; sempre há mais e mais a aprender e conhecer.

abs

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

...no só rascunho já estava belo o post. Agora, finalizado, sua idéia iluminou-se, Renata. Parabéns.

Adoro pessoas inteligentes, que se dão ao trabalho de aperfeiçoar qualquer idéia, notadamente as criativas.

Seu estilo de escrever é especial; merece meu respeito.

abs e BOM FINAL DE SEMANA!

marcela (arlequinal) p. disse...

"É apenas isto: se você vai ser humano, tem um monte de coisas no pacote.

Olhos, um coração, dias e vida. Mas são os momentos que iluminam tudo.

O tempo que você não nota que está passando... é isso que faz o resto valer."

(Morte, "Sandman", Neil Gaiman)