sexta-feira, 13 de agosto de 2010

EM SEUS BRAÇOS


Você me transformou em uma mulher perigosa


Impede que te implore
Pede que engula o choro
a birra


Arremessada a vilania,
suspiro baixinho



doce
má.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

ALICIA.

Alicia queria muito viver uma história de amor. Já era uma moça de 16 anos que pintava os cabelos, depilava as axilas e maquiava as bochechas. Faltava a Alicia viver o amor.

Desde os 13 anos Alicia já sabia o que era amar, foi de gordinha da turma a magricela do bairro depois de viver um amor platónico por um garoto da escola. Para as amigas do bairro dizia que namoravam escondido, para as meninas da escola dizia que não gostava de ninguém. E como Alicia sofreu com aquele garoto metido a boy, que mau notava sua presença e que lhe roubou um beijo desastroso, em uma festa de aniversário, depois de já ter colocado a língua em várias bocas de meninas na noite. Não importa, o gosto da boca daquele menino tosco a fez sonhar, a fez ter o coração disparado, a fez parar de comer com o gelo no estômago. E Foi que conhecia do amor.

Queria viver mesmo era uma história de amor, cor-de-rosa choque como as dignas dos grandes poemas, grandes romances e filmes. Ai, ai… queria tanto…

E foi assim, querendo, que a moça conheceu Jair, o moço que mudou para a casa da esquina. Ninguém se deu conta do novo moço do bairro, as amigas até deram de ombros ao tal Jair da esquina, mas, Alicia, queria era viver uma história de amor, estava apaixonada pela ideia de amar e quis Jair.

Jair, era um moreno até que bonito, mas, tinha um tique estranho de ficar piscando, piscando, piscando… E que agonia que dava as pessoas! Mas, Alicia, resolveu achar aquilo o charme de Jair, afinal, ele era novo no bairro, na escola e não a julgaria pelos porres de cair e os montes de boca que beijava em cada festa.

Foram meses de Alicia querendo Jair, sem sucesso. A moça cansou de passar “rebolativa” na frente de Jair, cansou de o olhar, de sorrir de canto… Quase desistiu de Jair, chegou até a reclamar do pisca que pisca sem fim do moço. E o moço? Não sabia o que fazer com aquela menina assanhada. Ela parecia ser bonita, mas, ele nunca a conseguia olhar em detalhes, já que não conseguia olha-la assim, ela o olhando, ela o cercando, ela o intimidando.

No sexta, Jair conseguiu se esconder atrás dos amigos e observa-la. Ela estava com as meninas escutando alguma destas histórias emocionantes femininas. Levava a mão na boca em suspense de uma forma tão escanchada. Os cabelos eram compridos com as pontas querendo sair ao vento, seus olhos eram de um marron brilhante e aquele jeito engraçado de colocar as mãos pequenas a boca, isto conseguiu ver bem. Ah sim, o corpo. Era bem torneado em curvas discretas, se escondia em uma pele morena que dava uma vontade urgente de tocar. Sim, a assanhadinha era bonita.

Sábado, Jair falou oi a Alicia e ela curiosamente corou, envergonhadíssima. Depois disso, já não o fitava como antes. Taí, Jair já não sabia o que fazer com a assanhadinha corada. Passou a tarde com ela que não saia da cabeça, brigou com a mãe, com o cachorro e foi dormir mais cedo, chateado, na bronca com seu sentimento.

Domingo, soube dos amigos entre risadas que Alicia embebedou-se na praça e que um moço de carro branco a levou para casa. Dormiu novamente na bronca, mas, desta vez tomou um remédio que desse um jeito no buraco no estômago que o atormentava com a imagem dos olhos que desviaram dos deles… E corada? Onde já viu, a assanhadinha, corada?

Segunda, Jair, deu por conta que estava apaixonado pela menina assanhada e o nervosismo o fez voltar mais cedo do colégio por causa do pisca-pisca sem fim dos olhos que estavam descontrolados por conta da paixão.

Ontem, Alícia estava mais espevitada que nunca! Chegou ao colégio com uma roupa colorida e com sombra azul nos olhos. Depois de repassar os assuntos do dia com as amigas, foi até a biblioteca finalizar o trabalho de português. Sentada distraída com a interpretação do texto e análise sintática, foi surpreendida por Jair que sentou ao seu lado. Alicia e seu jeito extrovertido sumiram na cadeira, sobrou para contar a história uma Alicia séria, calada e trémula. Jair, parecia ter desaprendido a fala. Os olhos pareciam afundar no pisca que pisca que pisca o deixando sem graça. Mas, a assanhadinha era Alicia demais! Assim, tão sem jeito e de perto, sua pele do rosto corada fazia uma fofura com seus lábios entreabertos indecisos. A menina não esperava que Jair fosse assim, que a olhasse, que a conquistasse, que a cercasse, que a encantasse, que a espreitasse com tanto este interesse distinto. Também não esperava que Jair a convidasse para ir tomar sorvete na tarde quente de terça.

Ninguém se lembra o que Alicia disse baixinho a Jair ontem a tarde naquela biblioteca, o fato é que, hoje, passaram aqui na frente da loja de mãos dadas. Alicia rebolativa mais que o normal e Jair com os olhos pisca não pisca, pisca não pisca. Digo com certeza o casal está apaixonado. Jair ainda hoje tomou remédios para o frio de estômago que corada a paixão lhe causa e Alicia vive a sua história de amor…

quinta-feira, 22 de julho de 2010

LOLA E BRIGITTA IV

O AMOR.
Leu afoita e com o coração ainda acelerado os versos enquanto Brigitta a olhava entusiasmada. Lola sentia ainda o sangue borbulhar nas suas veias, mas, não conseguia parar de ler a revista com poemas, enquanto a amiga ria da forma que Lola usava a voz rouca e firme para ressaltar as palavras do poema para dar dicas involuntárias de como estava se sentindo.

Brigitta admirava a maneira distante que Lola enfrentava seus sentimentos. Era como se observasse de longe, sentada em uma confortável poltrona, seu coração bater. Assim, ria quando batia em descompasso e fazia caras de esnobe quando o batimento ficava sôfrego de decepções. Ria daquele instante em que a amiga, em desespero, tentava descrever o que estava sentindo da sua maneira peculiar, mas, entendia que a poltrona não estava tão confortável e que possivelmente Lola não contaria para ela verdadeiramente como e o que havia acontecido. Talvez contaria depois de uns dois dias, rindo da maneira boba que se comportou.

Colocou a velha revista sobre as pernas e pediu para Brigitta contar novamente sobre o primeiro beijo que Jean lhe deu a alguns meses atrás. Então colocou sua cabeça no colo da amiga, enquanto Brigita tentava achar outras palavras e por outro ângulo se encantar e encantar a amiga com aquele momento.

Brigitta viu Jean todo engravatado na saída da igreja em um domingo frio, a mãe o puxava pela mão como se ele fosse uma criança pequena precisada de cuidados, mas, Jean, já era adolescente! Brigita já tinha reparado na escola os primeiros pelos da barba no rosto do menino e isto a embrulhou o estômago! Este foi o primeiro sentimento que teve em relação a Jean Pierre Molde. O segundo foi se interessar pela maneira que a família o cercava de carinho, logo aquele menino maltrapilho e peralta da escola, com uma mãe que o puxava pela mão e o penteava para os domingos como um homenzinho?! As próximas vezes que Brigitta observou Jean sempre perdia tempo com coisas em particular. Foi assim que viu que Jean tinha olhos imensos de um azul escuro e que em dias específicos pareciam querem saltar para a vida. Viu que quando Jean sorria uma covinha do lado esquerdo do rosto se formava e que, suas mãos eram pequenas e que, seu cabelo tinha cachos e redemoinhos indomáveis e que, corria mais rápido que os outros garotos e que, não puxava seu cabelo como puxava das outras meninas e que, de tanto reparar e querer reparar mais, sentia uma coisa estranha na barriga quando seus olhos cruzavam o de Jean. Então, começou a querer ir em todos os domingos a igreja e Lola reclamou muito quando a obrigou a mudar de lugar para ficar mais perto do menino. Então… Começou a passar uma cor nas bochechas para ir na escola e a deixar os cabelos livres na hora do lanche. Então… começou a ir dormir mais cedo e ficar acordada na cama imaginando, Jean e ela, personagens dos livros de romance. Estava apaixonada.

Primeiro Jean se aproximou de Lola. Juntos fizeram muitas peraltices até que um dia voltando a escola se ofereceu para levar os livros de Brigitta e o esbarrar de mãos fez seu coraçao aos pulos, mas, se manteve firme e não desviou os olhos dos olhos de Jean durante todo o trajeto, enquanto Lola fazia suas traquinagens, os dois trocavam olhares e sorrisos até chegar no portão da casa da Brigita. E foi assim por longas semanas até Jean convidar Brigita para passear no lago no sábado seguinte. Brigita sabia que Jean era seu primeiro amor e sabia que toda aquela ebulição de sentimentos era paixão e estava segura e preparada para o amor. Jean a beijou na beira do lago em um final de dia alaranjado, logo após de se declamar em amores. Brigitta não fugiu do seu hálito doce de menino e nem sequer mostrou medo da língua a procurar pela sua saliva, nem desviou dos olhares de Jean, nem das suas mãos ligadas a sua a caminhar pelo lago…

Eu o amo. Disse Brigitta enquanto prendia o cabelo da amiga com um laço de fitas. Lola, adorava a história de Brigita e Jean. Sempre pedia para que ela repetisse a descrição do amor e ria sobre o frio na barriga e o bambear nas pernas.

Apesar de achar nobre o amor e estar curiosa sobre paixão, Lola estava com medo com do descontrole que o beijo causou em seus pensamentos, mal conseguiu escutar o que Brigitta te recontou, não conseguia raciocinar sobre coisas que tinha que fazer para ajudar a mãe, só a boca, as mãos nas costas, o beijo e o tal embrulho no estômago, por outro lado, entendia melhor o estado poético das palavras de amor e queria ler todos os romances novamente, e queria….

Não disse a Brigitta sobre o beijo, embora soubesse que a amiga estava curiosa, foi embora “da casa” em silêncio, precisava racionalizar sobre o amor.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

...

...penso que o amor é assim
e que quando você me beija
penso que é assim:

um pouco de mel
um pouco de delírio
um pouco de afeto

penso que sem você
morreria
explodiria
acabaria:

no pó
na sarjeta
na tristeza.

fecho meus olhos
e abraço você:

seus ombros fortes
seu corpo quente
sua ternura macia


penso que
se…
penso que….
penso

não penso.

(Video da maravilhosa, espaçosa e grandiosa Nina Simone, interpretação deliciosa da intensa I Love You Porgy)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Plácido e o fabuloso mundo do futebol.

Plácido conhecia bem a vida. Já tinha vivido intensamente de tudo um pouco, se jogado de modo ousado em situações e caminhos que alguns poderiam julgar imorais, insensatos e loucos. Para Plácido isto era apenas a vida. E era assim que para as alegrias, se diluía por dentro em felicidade e força. Para as decepções, hibernava no seu interior, dizendo a todos: “são coisas da vida”.


Enquanto sua mãe chorava no quarto, ele escolheu no armário as roupas para levar no hospital onde o corpo do pai se esvairia sem vida . Do sofá, o observei passando a escova de brilho nos sapatos pretos do pai. Vi aquele homem forte e sagaz desmoronando, com olhos escorrendo de uma tristeza infinita. Podia até escutar o choro silencioso de Plácido se fundir ao barulho ensurdecedor do lustro no sapato preto que tinha um destino frio e obscuro.


Foi assim, cabisbaixo, demolido e desesperançado que Plácido seguiu por sua vida após a morte do seu velho. Sempre esteve firme e preparado aos fortes trancos da vida, mas, desta vez…Era como se toda sua força e ardência pela vida tivessem sido enterradas naquele dia quente de Julho. Fechava os olhos a qualquer momento do dia e revivia o concreto sendo unido aos tijolos iluminados pelo sol escaldante tendo o som arrastado da pá do coveiro batendo no concreto como trilha sonora angustiante.


Sem se dar conta, sem movimentos próprios, sem que suas pernas o levassem, viu sua vida ir ladeira abaixo, viu e aceitou. E aceitou sem forças ou reação. Era o trabalho que entrou em crise, era a falta de vontade para qualquer mudança ou novo investimento, era o abandono da família e dos amigos, era o tanto o faz para ter qualquer relacionamento.


Inerte, passava longos dias em seu apartamento. Em poucos momentos se sentia triste, na maior parte do tempo era tédio. Era preguiça. Era desânimo. Era nada. Horas sem fim na frente de um computador lendo e procurando exemplares antigos de revistas em quadrinhos, curiosidades toscas sobre a vida animal e muita pornografia bizarra. A televisão era ligada 24 horas por dia passando as mais nojentas séries americanas, que eram vistas e revistas quando Plácido não estava dormindo entre roncos de cuecas no sofá. Do sofá, para a geladeira, a olhar catatônico por longos minutos, até inventar sanduíches esquisitos com ingredientes em nada combináveis em sabores e consistências. Da geladeira ao banheiro, em banhos demorados com um Plácido de olhos parados por longo tempo sentindo a água escorrer pelo ralo e só.


Só. Nem álcool, que lhe causava náuseas. Nem a boémia de antes, que sentia sono. Nem mulheres, que tinha preguiça de convencê-las. Nem amigos e loucura, que sentia a necessidade sufocante de não falar nada, rir de nada, sentir nada.


Plácido não queria morrer, mas, também, viver estava sendo muito custoso. Plácido nunca quis ser um perdedor, nunca fora. Não queria ser um bosta, nunca fora. Nunca teve uma vidinha medíocre. Mas, a meses que não pensava sobre isto, nem se qualificava e muito menos sabia responder o que o faria um “grande homem” naquele momento. Ele não pensava. Era custoso, queria que o deixassem em paz. Só.


Estávamos nós lá, tentando dar uma força de amigos. Ele com um dos sanduíches toscos na boca e um copo de refrigerante vagabundo no copo sob as pernas, todos reclamando do técnico, dos merdas que tocavam a bola com moleza. E Plácido, lá, parecendo nem prestar atenção, mastigando com a boca aberta o sanduba que fazia escorrer um líquido amarelo na camiseta esgarçada a cada mordida faminta. Sentia falta dos comentários ácidos e engraçados que era acostumado a ouvir da boca daquele maluco. Até que Holanda marcou o segundo gol e Plácido como que por impulso cuspiu os restos do que havia na boca no tapete e saiu em disparada na janela gritando: “TOQUEM AS VUVUZELAS AGORA SEUS CORNOS”….


Silêncio total de segundos até escutar os mais baixos palavrões da vizinhança. Rimos como loucos rolando no tapete, enquanto o velho Plácido parecia meio tonto, meio bobo, meio rindo, meio alegre, meio... Meio que voltando ao normal…

terça-feira, 29 de junho de 2010

... sem palavras...

quando ele a jogou a parede
cobriu de beijos sua boca antes mesmo de tentar decifrar os olhares misteriosos
decidiu que não haveria mais sutileza
nem meia palavra
muito menos sentimentos jogados no ar
seria tudo claro
traduzido
visceral

apaixonado.

(vídeo: cena incrivel do filme "Vestígios do dia")

terça-feira, 22 de junho de 2010

Carol e Ro, nossos amigos.

Carolina virou para o lado, colocou o copo vazio na mesa e dormiu. Rodrigo ficou ali, com os olhos sem conseguir fechar. A força da frieza das palavras dela ainda ecoava em seus ouvidos.

Rodrigo sabia que Carolina não era lá estas mulheres de intensidade e sua superficialidade pela vida e sentimentos o enchiam de tédio e indignação. Mas, era inegável que a previsibilidade da namorada o deixava em uma situação confortável. Depois, Carolina, tinha um corpo até que bonito e era sempre tão mansa… Desde que conheceu Carolina, sempre teve os sentimentinhos, de garota medíocre, voltados para ele. Tá, ele concordava que não era nada difícil manter uma mulher como Carolina sob controle, mas, Rodrigo não se sentia homem o suficiente para ter na vida, uma mulher a mais que aquela garota que dormia na mesma cama que ele, só que a quilómetros do seu corpo. Foi assim que tudo se encaminhou para o namoro longo que ele não conseguia, e nem sabia se queria, se libertar.

Ficou ali, no escuro. Amargo e acuado, ruminando a frieza que Carolina o vinha tratando nos últimos dias. Ela sempre foi morna, dizia “eu te adoro”, como dizia “vou na esquina”, o desejava com a força de um rato mas, desdém…? Não poderia suportar isto de uma mulher tão pífia como Carolina. Mas, não tinha mais saco de fazer algo a mais por Carolina, ela tinha que se satisfazer por tê-lo como namorado bem posicionado e um futuro marido para acompanha-la nos eventos de família! E ela ainda o desdenhava…?

Levantou da cama inconformado, se achando o maior merda do mundo, andou de um lado para o outro do lado, lançando olhares fulminantes a Carolina que dormia, com a boca aberta, profundamente. Sentado na poltrona posicionada a frente da namorada, discou o número da moça que trabalhava na loja da frente ao seu trabalho. Foi uma conversa de uns vinte minutos, com sua voz baixa e provocativa, destilou insinuações a moça do outro lado da linha que correspondia as suas palavras com malícia e interesse. Suas risadinhas e elogios estratégicos, combinados a olhares furiosos a moça que dormia, ressoavam no quarto como atitude sádica e diabólica e Rodrigo um vulto forte e indomável.

Antes de voltar para cama, escovou seus dentes olhando para o espelho que refletia a imagem de um homem poderoso. Foi assim que dormiu tranquilamente e nem se deu conta dos quilómetros que o afastavam de Carolina, ali, na mesma cama que ele.