domingo, 24 de outubro de 2010

Mãos Dadas (rascunhando)

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente



(quando a inspiraçao anda sumida pelo cotidiano que terrivelmente nos consome é justo apelar para iluminações santas do grande poeta: Rogai por nós, Carlos Drummond de Andrade)



Enquanto, discretamente, passava seus dedos nos braços dele até chegar nas mãos fortes em espera de afago, notava que seus olhos traçavam o mesmo caminho até olharem cheios de apreensão ao enlaçar firmes de mãos e só então, depois das mãos dadas, é que os olhos se encontraram com um quê de medo, uma porção de frustração, tristeza e de mãos dados se sentiram sumariamente encurralados.

Havia o medo real que depois daquela noite se perdessem um do outro em seus caminhos, foi por isto, que passaram a noite de mãos dadas. A cada nova posição que os deixassem mais próximos em seus sonhos mantinham-se sempre com mãos unidas. Horas somente uma, horas somente dedos que se tocavam, horas, quando o perigo parecia maior, davam-se as duas mãos um ao outro.

Quando veio o dia claro, seus corpos e mãos ainda estavam enlaçados, inocentemente se sentiram salvos. E veio a despedida, as mãos separadas, mãos em abano.

O corredor é longo… as mãos, que mascaram a saudade a disfarçar o risco, agora soltas em caminhos da vida presente, do tempo presente.




terça-feira, 5 de outubro de 2010

corra, corra...

é um corre-corre dos infernos
quando corro atrás de você, você vai em fuga
revido
e vou em fuga, raivosa!
revida
corre atrás de mim, desejoso!

Que Deus me acuda, minhas pernas já estão cansadas!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

amor, com amor se paga.



“me dê sangue
e mais sentimentos
pois lá fora já é frio demais”

Nasi


Sua boca perto a minha e eu só ouvia o mexer da sua língua em fonemas amorosos saltados para fora! Eu te amo e daria a vida por ti.


Foi assim que me levou para junto do seu mundo, que não fazia parte. Escutava todos os dias eu te amo e ficava feliz, te esperando ansiosamente para o jantar.


Depois o som da saliva melenta das palavras desapareceu e o barulhinho gostoso que ouvia de “eu te amo” ficou tão duro. Foi aí que você chegou feliz em casa com um casal de cachorros para lá de feios. Disse que eram importados da … da… de… uma tribo aborígene da Nova Zelândia, que tinham um pedigree e que eram raros e que….


Mas, amor, eram cachorros e eu te amo.


E eu, que por muito tempo os achei esquisitos e animais, comecei a conversar com eles, aquelas conversas de “tatibiritá” como se fossem crianças, os coitados. Suas babas escorridas nos pelos respondiam em linguagem que eu quase entendia.


Um dia você chegou e eu dormia. Acordei manhosa. Repudiou meu beijo. Afastou-me do seu corpo. Despejou seu dia enfadonho. Deitou debaixo das cobertas com um pijama escroto e disse EU TE AMO. Assim, assim mesmo, EU TE AMO. Escutei claramente o som das palavras no ar frio e silencioso do nosso quarto, fiquei lá, ecoando…EU TE AMO.


Nossos cachorros são lindos, eu me divirto com o jeito que dormem o dia todo em posições engraçadas. Eles me respondem sempre com gracejos sutis, eles são tão raros, caros e queridos, que, as vezes esqueço que são animais…


Amor, hoje eu disse para eles “mamãe, ama vocês”. Amor, juro, juro que escutei o barulho da saliva de um deles a dizer, eu te amo também.


Você ri e dorme. E eu escuto indo pela janela o grunido baixo que soltou… eu te amo.


Amor, eu amoooooooooo nossos cachorros….

(video do DVD "ao vivo em cena" do NASI. Uma nova e maravilhosa fase deste incrivellllll roqueiro brasileiro! Uma das músicas mais lindas que escutei nos últimos tempos. Reparem no beribau do Dinho Nascimento)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

a festa,






Observando…


As moças dançavam ao som da música que crescia em ritmo e empolgação. Sambavam e rodopiavam seus cabelos soltos na fumaça envolvente do ambiente a rebolar os quadris insinuantes. Trocavam olhares e palavras ao pé-da-orelha entre si e com rapazes a volta que não se deixavam envolver, alienados nas cervejas, nas vodkas, nos cigarros, nas conversas entre amigos e desconhecidos que chegavam a todo instante a comemorar o 11 de setembro, armando assim, posições de defesa em um campo de guerrilha. Esculhambados, com o ataque veroz , muniram-se de estratégias etílicas, mas, não havia tempo suficiente. A sala esvaziou-se da libido feminina e onde se olhava não se via as meninas escondidas em outros cantos da casa.


Como bebês chorões viram-se no desespero longe das suas casas, das suas mulheres, das suas conquistas e vitórias. Restava a miséria do dinheiro no bolso, o frizer cheio de cervejas e o alento das fotos de Che Guevara nas paredes.


Já se ia meados da madrugada, viam-se restos espalhados por todo o lado e o rapaz, que desfilava sua camiseta vermelho sangue: “ai Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”, resgatava seus amigos decaídos e perdedores dos escombros.


Pula de la madre, malditos comunas, fui embora sozinha.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MANOLO BLAHNIK

Maria Luisa é uma mulher incrível. Inteligente, culta e bem articulada, atrai olhares de todos por onde passa. Seu porte físico esguio e elegante ganha ares de uma sensualidade natural em gestos, charme e um despojamento autêntico. Nascida em berço de ouro e acostumada com lençóis de algodão egípcio, foi educada nos melhores colégios, leu os grandes clássicos, visitou os museus mais significativos, foi a shows e teatros de artistas incontestáveis, frequentou desde pequena os melhores lugares, nas melhores viagens pelo mundo. E quando resolveu saber mais da vida foi morar sozinha na Europa. Estudou e trabalhou no que quis, se entregou a grandes paixões e a amores mansos. Foi amada, amou, desamou, teve decepções amorosas sempre curadas em banhos de espuma e taças de vinho francês. Quando decidiu por responsabilidade, criou uma grife de roupas que logo ficou famosa. Casou com um grande amor e desde que o casamento havia acabado, morava em uma casa maravilhosa, distante do grande centro da cidade. Em sua sala espaçosa com confortáveis sofás e paredes imensas de vidro, Maria Luisa, recebia, em festas e reuniões super concorridas, intelectuais e pessoas descoladas que por madrugadas adentro se deliciavam ao som de boa música, poesia e conversas animadas.

Bene é um homem estranho. Um destes moradores de rua sujos e sem identidade, logo ganhou fama na rua onde dorme, pelo seu jeito esquisito e eloquente de ser. Com traços de esquizofrenia, anda pelas ruas vivendo de esmolas e sempre as voltas com as assistentes sociais que querem lhe dar um lar, uma “vida de homem de bem”. Ao contrário do que pensam, não gosta de bebidas alcoólicas, na verdade, adora aproveitar o anonimato e a fama de louco para dizer o que quer, da maneira que quer. Nem sempre foi assim. Benedito, trabalhava com carteira assinada, tinha carnês, de prestações a perder de vista, de carro e electrodomésticos. Casou-se jovem, com a menina bonita e carinhosa do bairro, para assumir uma gravidez precoce e assim viu o sonho de ser professor de literatura ir por água abaixo. Um dia, depois de um dia péssimo de trabalho, chegou em casa e paralisou perante a descabelada e obesa mulher, que a sua menina tinha se transformado, ela berrava mil reclamações enquanto devorava espalhada no sofá, sujo da sala, um prato de macarrão instantâneo. A paralisia se transformou em uma crise nervosa irreversível que o fez sumir dali e nunca voltar. Bene era do mundo.

Janete era engraçada. Tinha uma maneira peculiar de sempre ir diretamente ao assunto, mesmo sendo, este assunto, desagradável e indigesto, louca por detalhes, arrematava com um comentário decisivo baseado no mundo próprio que vivia. Não era bonita, nem feia. Viveu sua infância correndo e andando de bicicleta em uma cidade do interior, quando mudou para cidade grande, achou tudo tão diferente, mas, logo se adaptou. Trabalhou em tantas coisas que não saberia mais quantificar e gastava grande parte do que ganhava, sendo vendedora de uma loja de ferramentas para construção, em roupas inspiradas na moda das telenovelas. Adorava dançar e saia com amigas para boates e bares da cidade. Só havia namorado uma vez e desde então, tinha relacionamentos rápidos, sempre com mil histórias engraçadas, amantes problemáticos e namoradinhos apaixonados. Aprendeu desde cedo que se fosse educada e cordeira, teria bons lucros! Andava as voltas com um patrão que a assediava e humilhava, mas, tinha os três cartões de créditos cheios de prestações para pagar, por isto, suportava tudo, sendo calculista, sempre de olho na próxima e prometida grande oportunidade que a vida iria lhe trazer.

Maria Luisa saiu apressada do seu terapeuta, no elevador seu celular tocou e era sua amiga chorando e reclamando da traição do marido, ao atravessar a rua............

Janete, pegou a condução para voltar ao trabalho depois de ir ao centro bancário pagar parte das suas contas, pestanejou contra o cobrador grosseiro e o motorista apressado. Sentou no primeiro banco logo a frente e antes mesmo de se acomodar foi arremessada contra o vidro do ônibus depois de uma freada brusca, tentativa frustrada de.......

Bene, comia na praça um resto de mamita oferecida pelo dono do bar da esquina, olhava para suas mãos sujas distraído ao mastigar, voltou a realidade pelo barulho de um ônibus em alta velocidade tentando frear, seu coração disparou, preferiu não olhar e escutou gritos….

Os respingões de sangue no vidro do ônibus assustaram Janete. Sentiu o sangue escorrendo pelo rosto e por segundos, achou que aquele vermelho fosse do seu corpo. Ao levantar, assustada e maldizendo o motorista imprudente, olhou para o asfalto a frente, e soltou um grito de desespero ao ver a poça de sangue em que Maria Luiza estava mergulhada.

Sol a pino em dezembro feito de verão escaldante, uma hora da tarde, o trânsito que já marcara seu compasso com buzinadas e palavrões pelo atraso na cidade que não pode parar. Bene, viu estendida sob o asfalto a moça com o rosto desfeito em carne em pedaços, o sangue, que escorria pela cabeça de um cérebro amolecido a mostra, escoava borbulhando no asfalto quente. Seus últimos suspiros foram sôfregos e afogados em substâncias corporais retorcidas. A multidão de curiosos observava em transe caustico a cena pavorosa. Janete, já recomposta, em pensamentos agradecia estar bem e viva, já Bene, abriu caminho na multidão e ajoelhado perto de Maria Luisa observou a pele alva e macia das pernas a mostra e leu devagar os escritos do seu sapato: ma-no-lo b-l-a-h-n-i-k, olhou para o céu e como em profecia, começou a gritar com toda força da sua voz em disparada: DO PÓ VIEMOS, AO PÓ VOLTAREMOS!
( esta crônica ja fui publicada neste blog. Então por ter um carinho especial por ela e tambem, por estar completamente sem tempo para escrever , a publico novamente)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

EM SEUS BRAÇOS


Você me transformou em uma mulher perigosa


Impede que te implore
Pede que engula o choro
a birra


Arremessada a vilania,
suspiro baixinho



doce
má.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

ALICIA.

Alicia queria muito viver uma história de amor. Já era uma moça de 16 anos que pintava os cabelos, depilava as axilas e maquiava as bochechas. Faltava a Alicia viver o amor.

Desde os 13 anos Alicia já sabia o que era amar, foi de gordinha da turma a magricela do bairro depois de viver um amor platónico por um garoto da escola. Para as amigas do bairro dizia que namoravam escondido, para as meninas da escola dizia que não gostava de ninguém. E como Alicia sofreu com aquele garoto metido a boy, que mau notava sua presença e que lhe roubou um beijo desastroso, em uma festa de aniversário, depois de já ter colocado a língua em várias bocas de meninas na noite. Não importa, o gosto da boca daquele menino tosco a fez sonhar, a fez ter o coração disparado, a fez parar de comer com o gelo no estômago. E Foi que conhecia do amor.

Queria viver mesmo era uma história de amor, cor-de-rosa choque como as dignas dos grandes poemas, grandes romances e filmes. Ai, ai… queria tanto…

E foi assim, querendo, que a moça conheceu Jair, o moço que mudou para a casa da esquina. Ninguém se deu conta do novo moço do bairro, as amigas até deram de ombros ao tal Jair da esquina, mas, Alicia, queria era viver uma história de amor, estava apaixonada pela ideia de amar e quis Jair.

Jair, era um moreno até que bonito, mas, tinha um tique estranho de ficar piscando, piscando, piscando… E que agonia que dava as pessoas! Mas, Alicia, resolveu achar aquilo o charme de Jair, afinal, ele era novo no bairro, na escola e não a julgaria pelos porres de cair e os montes de boca que beijava em cada festa.

Foram meses de Alicia querendo Jair, sem sucesso. A moça cansou de passar “rebolativa” na frente de Jair, cansou de o olhar, de sorrir de canto… Quase desistiu de Jair, chegou até a reclamar do pisca que pisca sem fim do moço. E o moço? Não sabia o que fazer com aquela menina assanhada. Ela parecia ser bonita, mas, ele nunca a conseguia olhar em detalhes, já que não conseguia olha-la assim, ela o olhando, ela o cercando, ela o intimidando.

No sexta, Jair conseguiu se esconder atrás dos amigos e observa-la. Ela estava com as meninas escutando alguma destas histórias emocionantes femininas. Levava a mão na boca em suspense de uma forma tão escanchada. Os cabelos eram compridos com as pontas querendo sair ao vento, seus olhos eram de um marron brilhante e aquele jeito engraçado de colocar as mãos pequenas a boca, isto conseguiu ver bem. Ah sim, o corpo. Era bem torneado em curvas discretas, se escondia em uma pele morena que dava uma vontade urgente de tocar. Sim, a assanhadinha era bonita.

Sábado, Jair falou oi a Alicia e ela curiosamente corou, envergonhadíssima. Depois disso, já não o fitava como antes. Taí, Jair já não sabia o que fazer com a assanhadinha corada. Passou a tarde com ela que não saia da cabeça, brigou com a mãe, com o cachorro e foi dormir mais cedo, chateado, na bronca com seu sentimento.

Domingo, soube dos amigos entre risadas que Alicia embebedou-se na praça e que um moço de carro branco a levou para casa. Dormiu novamente na bronca, mas, desta vez tomou um remédio que desse um jeito no buraco no estômago que o atormentava com a imagem dos olhos que desviaram dos deles… E corada? Onde já viu, a assanhadinha, corada?

Segunda, Jair, deu por conta que estava apaixonado pela menina assanhada e o nervosismo o fez voltar mais cedo do colégio por causa do pisca-pisca sem fim dos olhos que estavam descontrolados por conta da paixão.

Ontem, Alícia estava mais espevitada que nunca! Chegou ao colégio com uma roupa colorida e com sombra azul nos olhos. Depois de repassar os assuntos do dia com as amigas, foi até a biblioteca finalizar o trabalho de português. Sentada distraída com a interpretação do texto e análise sintática, foi surpreendida por Jair que sentou ao seu lado. Alicia e seu jeito extrovertido sumiram na cadeira, sobrou para contar a história uma Alicia séria, calada e trémula. Jair, parecia ter desaprendido a fala. Os olhos pareciam afundar no pisca que pisca que pisca o deixando sem graça. Mas, a assanhadinha era Alicia demais! Assim, tão sem jeito e de perto, sua pele do rosto corada fazia uma fofura com seus lábios entreabertos indecisos. A menina não esperava que Jair fosse assim, que a olhasse, que a conquistasse, que a cercasse, que a encantasse, que a espreitasse com tanto este interesse distinto. Também não esperava que Jair a convidasse para ir tomar sorvete na tarde quente de terça.

Ninguém se lembra o que Alicia disse baixinho a Jair ontem a tarde naquela biblioteca, o fato é que, hoje, passaram aqui na frente da loja de mãos dadas. Alicia rebolativa mais que o normal e Jair com os olhos pisca não pisca, pisca não pisca. Digo com certeza o casal está apaixonado. Jair ainda hoje tomou remédios para o frio de estômago que corada a paixão lhe causa e Alicia vive a sua história de amor…