Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:
— Eu me alugo para sonhar.
Na realidade, era seu único ofício.
Gabriel Garcia Marquez.
Eu lembro, eu era pequena, não muito pequena, mas, pequena e
dançava rodopiando feito uma louca, uma louca pequena que quanto mais rodava e rodava e girava e cantava
mais parecia que iria voar, voar, voar, para o sonho mais distante, mais longe,
mais bonito, mais colorido, mais
possível.
“….depois passou pelo aeroporto lotado de
anominos indo e vindo com pressa das milhares de preocupações pelo mundo em
guerra silenciosa. Todos com seus pensamentos
construídos , com suas lembranças inventadas e próprias nervoses mascaradas.
Desta vez não olhou para cada rosto e se perguntou como
era fazer parte daquilo tudo. Somente caminhou apressada com o
preto colado ao corpo e aos olhos borrados das lágrimas que não existiam. Comum, como outra qualquer, absorvida pelo transito da vida
Sem o próximo beijo. Sem mais o próximo beijo
se atirou no imenso precípicio da realidade forjada dos passantes. Até que um
falha a fez repetir baixo e já sem forças te amo te amo te amo te amo te amo te
amo te amo te am te a te t…………………………..”
“Todos esses momentos se perderão no
tempo como lágrimas na chuva.
Hora de morrer”
(inspirado no filme Blade Runner, nas realidades da atormentada replicante Pris e na incrível trilha sonora de Vangelis.)
Revistinhas espalhadas pelo chão “J-u-l-i-a”, Sidney Sheldon
em letras garrafais na estante entre coisas guardadas e poesias lidas, pela
janela um céu lindo e longe, algo singelo como um balão, mas, rápido como um
rabo de cometa, a riscar o céu de pluma branca e fumaça negra levando para longe,
longe das chances de qualquer ilusão.
Sentou-se na cama confortável e fitou a parede branca de
pedra e tijolos e cimento. Talvez colocaria um lindo móbile feito de pássaros
que simulam algum vôo. Talvez...uma gravura de klint ou Hopper....Talvez....uma
grande televisão a passar o cotidiano dos outros mundos... Talvez...
Tinha planos, muitos planos.
Fechou a janela para o vento frio do inverno e deitou na
cama olhando para cima: o teto branco...sem nuvens, sem estrelas, sem lua.
Branco. Pedra.Tijolos. Cimento.
Mulheres: gostava das cores de suas roupas; do jeito delas andarem; da crueldade de certas caras. Vez por outra, via um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina. Elas levavam vantagem sobre a gente: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas. Enquanto os homens viam futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam na gente, concentradas, estudiosas, decididas: a nos aceitar, a nos descartar, a nos trocar, a nos matar ou simplesmente a nos abandonar. No fim das contas, pouco importava; seja lá o que decidissem, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura.
Charles Bukowski
Tremia em todos os ossos enquanto a língua invadiu a boca
retirando do coração um suspiro intenso. Nunca haviam lhe beijado desta maneira
e uma síncope quase o fez limpar o chão com seu terno novo. Maldita mulher! Maldita
língua a atravessar a secura de sua boca com aquela saliva quente e melada. Maldição
de vida! Tudo que queria era enlaçar sua cintura e dizer : “Let me take care of
you, babe girl”?! Não conseguiu. O veneno tomou conta do seu corpo e desabou em
abraços fortes. Maldito veneno o da paixão a cegar, a corroer, a palpitar os
poros da pele e a embasar os sentimentos. Maldita língua a sugar o que de
melhor e pior poderia sentir. Maldita mulher, “let....”, “take...”. Maldita
boca, língua e saliva que treme, que gagueja, que espalha, que dói, que deseja, que prende... que “my
babe girl...”
Em um gesto simples e banal, colocou as mãos dentro do peito e pegou seu coração nas mãos.Olhava para o vermelho sangue das veias e para as fibras musculares que pulsavam em total descompasso. E ficou sentado ali. Tudo calmo. E ele a observar o quanto o coração pode fazer apaixonados definharem como loucos esfolados. O coração pulava em suas mãos, mas, ele segurava forte. Tudo estava no controle.